Jogos do Vitória

90 minutos no Barradão é muito tempo: a origem da frase do Renê

90 minutos no Barradão é muito tempo: a origem da frase do Renê

Renê cravou que 90 minutos no Barradão é muito tempo após o 4 a 0 no Athletico-PR. Veja a origem da frase com Juanito em 1985 e o que sustenta o caldeirão do Leão.

Tem frase que nasce pronta. Quando Renê saiu do gramado do Barradão na noite de quinta-feira (06/08), com dois gols nas costas e a vaga nas quartas de final da Copa do Brasil no bolso, ele não precisou de discurso. Disse o que todo torcedor colossal já sabia sem nunca ter posto num quadro: 90 minutos no Barradão é muito tempo. É uma frase emprestada, e o empréstimo tem quase quarenta anos de estrada. Mas nunca soou tão nossa quanto naquela noite, e este texto é sobre o motivo.

“Não tem explicação, essa torcida é maravilhosa, 90 minutos no Barradão é muito tempo, sabemos da nossa força em casa”

Renê, lateral-esquerdo do Vitória, à GE TV, após o 4 a 0 sobre o Athletico-PR (06/08/2026)

A noite que devolveu o Leão ao mapa da Copa do Brasil

O contexto pesa na frase. O Vitória havia perdido a ida por 2 a 0, em Curitiba, e precisava de uma vitória por três gols de diferença para avançar direto, sem pênaltis. Fez por quatro. Renê marcou aos 10 do primeiro tempo e aos 15 do segundo, Erick ampliou no fim da etapa inicial e Marinho fechou a conta nos minutos finais. Agregado: Vitória 4 x 2 Athletico-PR. Quem viu de perto entendeu por que a Bahia Notícias resumiu a noite no próprio título, dizendo que no Barradão é diferente.

Jogo Placar Onde
Ida (03/08) Athletico-PR 2 x 0 Vitória Arena da Baixada, Curitiba
Volta (06/08) Vitória 4 x 0 Athletico-PR Barradão, Salvador
Agregado Vitória 4 x 2 Leão nas quartas de final

O relato completo dos gols, do agregado e da premiação está na nossa cobertura do pós-jogo. Aqui a conversa é outra: por que essa frase cola no nosso estádio.

Renê não vestiu a manchete à toa: ele lidera a artilharia da Copa do Brasil

Os dois gols do lateral contra o Athletico-PR fizeram mais do que carimbar a vaga. Colocaram Renê como artilheiro isolado da Copa do Brasil 2026, com 6 gols em 7 jogos disputados e 3 gols de vantagem sobre o pelotão logo atrás, formado por Bernabei e Erick, os únicos que seguem vivos na competição, empatados com 3 gols cada um.

O que o torcedor colossal só soube depois do apito é que a artilharia teve empurrão de fora de campo. Segundo apuração de nossa redação, Jair Ventura confirmou, na mesma coletiva em que provocou o Athletico-PR, que teve uma conversa reservada com o lateral antes da decisão, mas preferiu não abrir o conteúdo.

“Fico feliz pelo Renê, que é um dos nossos artilheiros. Tive uma conversa com ele em particular, muito boa, mas não posso revelar.”

Jair Ventura, técnico do Vitória, sobre o papo com Renê antes da decisão contra o Athletico-PR

O momento explica por que o técnico escolheu puxar o lateral para o lado. No jogo de ida, com o placar ainda 0 a 0, Renê desperdiçou uma chance clara e viu o Athletico-PR abrir o placar minutos depois. Até ali, ele vinha de apenas 1 gol nos 9 jogos anteriores pelo Leão. Na volta, já com o papo reservado nas costas, fez os dois gols que puxaram a virada. A provocação completa de Ventura ao Athletico-PR, da mesma entrevista, está na nossa cobertura da coletiva.

Contratado pelo Vitória em abril de 2026, Renê soma 25 jogos, 12 gols e 1 assistência com a camisa rubro-negra. No ranking interno do elenco, é o segundo maior artilheiro do ano, atrás apenas de Renato Kayzer, que tem 13 gols em 28 partidas. Pouco mais de meio ano depois de chegar, o lateral virou artilheiro isolado de mata-mata nacional, e é esse tipo de crescimento que dá ao torcedor colossal outro motivo para acreditar no Leão até o sorteio das quartas, na terça-feira (11/08).

De onde vem a frase que o Renê ecoou

A fórmula não nasceu em Salvador. Nasceu em Milão, num vestiário perdido, na boca de um espanhol inconformado.

Juanito, San Siro, abril de 1985

Juan Gómez, o Juanito, camisa 7 histórica do Real Madrid, acabara de ver seu time perder por 2 a 0 para a Inter de Milão na ida da semifinal da Copa da UEFA. Em vez de baixar a cabeça, cravou aos italianos uma sentença num espanhol atravessado de italiano: “90 minuti en el Bernabéu son molto longo”, 90 minutos no Bernabéu são muito longos. Em 24 de abril de 1985, o Real venceu por 3 a 0 em casa, virou o confronto e foi campeão do torneio. A profecia pegou, e virou o hino de toda virada madridista desde então.

Abel Ferreira trouxe a fórmula para o Brasil

O futebol brasileiro já tinha traduzido o bordão antes de nós. Abel Ferreira adotou a versão “90 minutos no Allianz é muito tempo” e a repetiu até o cansaço depois de o Palmeiras perder por 3 a 0 da LDU na ida de uma semifinal de Libertadores. Na volta, o Palmeiras fez 4 a 0, conforme registrou a ESPN na época. Curiosidade que o torcedor do Leão da Barra vai apreciar: dias antes da classificação sobre o Athletico-PR, o Vitória havia trocado farpas justamente com o Palmeiras. A fórmula voltou como bumerangue, e desta vez saiu da boca de um jogador nosso.

As três viradas que a frase construiu

Quem Perdeu a ida por Ganhou em casa por Estádio
Real Madrid (1985) 2 a 0 3 a 0 Santiago Bernabéu
Palmeiras 3 a 0 4 a 0 Allianz Parque
Vitória (2026) 2 a 0 4 a 0 Barradão

Repare na linha de baixo. O Leão perdeu pelo mesmo placar do Real de Juanito e devolveu com a mesma goleada do Palmeiras de Abel. Não foi imitação: foi a síntese das duas, feita em Canabrava.

Por que 90 minutos aqui rendem mais do que 90 minutos

Frase bonita sem número é só frase bonita. O que sustenta a do Renê é o que aconteceu nas catracas. O Barradão recebeu 20.638 torcedores naquela quinta, com renda de R$ 488.407,00, segundo números divulgados pelo clube. E o detalhe que explica o barulho:

  • 18.214 dos 20.638 entraram pelo programa de sócios Sou Mais Vitória, ou seja, quase 9 de cada 10 presentes são o torcedor que paga o Leão todo mês.
  • Foram 1.623 pela bilheteria, 689 no setor corporativo e 98 crianças não pagantes.
  • No jogo anterior em casa, contra o Palmeiras, o público havia sido de 14.818. De um jogo para o outro, alta de 39,3%.

Não é um estádio grande que faz caldeirão: é um estádio cheio de gente que se sente dona dele. A capacidade oficial do Barradão é de 30.793 lugares, longe das arenas de 60 mil. A pressão não vem do tamanho, vem da proximidade. Os números completos de público e renda estão na nossa apuração do dia seguinte.

Quem sente na pele é quem joga contra

A melhor prova de que o Barradão aperta não sai da nossa boca. Sai da boca de quem veio aqui e foi embora com o ouvido zumbindo. E não é conversa de agora: são depoimentos espalhados por quase vinte anos.

O pentacampeão do mundo, em 2009

Marcos, goleiro pentacampeão do mundo com a Seleção, foi ao programa Bem Amigos e não economizou ao falar do que sentira em Salvador:

“Pode pegar aí os melhores, pega aí o Manchester United, bota pra jogar contra o Vitória lá na Bahia pra ver se não vai levar sufoco…”

Marcos, goleiro do Palmeiras, no programa Bem Amigos, em setembro de 2009, conforme registrou a Bahia Notícias

Na época, o Leão havia somado 27 dos 36 pontos disputados em casa, 75% de aproveitamento. Marcos não estava sendo gentil: estava explicando uma tabela.

O lateral do Mirassol, em 2025

Perguntado pela Amazon Prime Video sobre o estádio mais difícil em que já jogou, Reinaldo, lateral-esquerdo experiente, com mais de 40 partidas na temporada, respondeu sem hesitar:

“Barradão. Lá é um caldeirão. A torcida canta do começo ao fim. Então é um estádio raiz.”

Reinaldo, lateral-esquerdo do Mirassol, em dinâmica com a Amazon Prime Video, em novembro de 2025

E até quem apitava aqui

Num vídeo que circulou entre os torcedores em janeiro de 2026, um ex-árbitro com passagens pelo estádio descreveu o Barradão como um daqueles palcos de molde antigo, em que a arquibancada está grudada no campo: “é um estádio que a torcida pulsa, mas é gostoso de trabalhar (…) o torcedor baiano ele é muito vibrante”. Vindo de quem trabalhava sob aquela pressão de apito na mão, o elogio vale dobrado.

A TUI e o Capitão Caverna: quem faz o barulho

Esse zumbido tem endereço. A Torcida Uniformizada Os Imbatíveis, a TUI, é a maior e principal organizada do Esporte Clube Vitória. Foi fundada em 20 de outubro de 1997 por quatro torcedores, Fábio Menezes, Rubem Marques, Flávio Sá e Marcus Anunciação, com uma ideia simples: fazer uma torcida mais vibrante e mais presente nos dias de jogo.

  • Símbolo: o Capitão Caverna, estampado nas bandeiras e nos uniformes.
  • Onde fica no Barradão: atrás do gol, à direita das cabines de rádio.
  • O que carrega: a bateria, que é o motor dos 90 minutos que o adversário acha longos.

Quando o Reinaldo diz que a torcida canta do começo ao fim, é disso que ele está falando. Canto que não para depende de gente organizada para não deixar parar.

O Barradão já tinha sido palco de milagre antes

Quem acompanha o Leão sabe que a noite do Athletico-PR não foi a primeira vez que este gramado reescreveu um destino. Em 2022, na Série C, o Vitória conquistou o acesso em casa, num roteiro que o próprio técnico daquela campanha transformou em livro: “A Mão de Deus: do rebaixamento ao acesso”, de João Burse com Arthur Vavaqua, lançado pela editora Futuca Cuca em 29 de dezembro de 2022, na loja oficial do clube. Burse assumira o time com 2,6% de chance de acesso e oito jogos por jogar.

“A gente começou a anotar os detalhes como Deus estava conduzindo tudo aquilo como as defesas do Dalton e os gols no momento certo.”

João Burse, sobre a origem do livro, em entrevista à Bahia Notícias

Não por acaso, o documentário que conta aquela campanha se chama “O Milagre Colossal no Barradão”. Num dos depoimentos, um torcedor descreve o momento do acesso e diz que passou um filme de um milagre colossal aconteceu aqui no Barradão. A palavra colossal não é enfeite no nosso vocabulário: é a régua. Vale visitar a história do clube para ver quantas vezes ela apareceu.

Mas o Barradão não é feitiço, e é importante dizer

⚠️ O outro lado da conta

Uma semana antes da virada sobre o Athletico-PR, em 29 de julho de 2026, o Vitória perdeu por 4 a 0 para o Palmeiras dentro do Barradão, terminando a partida com 9 jogadores em campo. No mesmo gramado, com a mesma torcida.

Registrar isso não enfraquece a frase do Renê: dá contorno a ela. O Barradão não ganha jogo sozinho, e nenhum torcedor do Leão da Barra que esteve nas duas noites vai dizer que ganha. O que o estádio faz é encurtar a distância entre o time e o impossível. Se o time entrega o que entregou contra o Athletico-PR, 90 minutos viram uma eternidade para o visitante. Se entrega o que entregou contra o Palmeiras, viram 90 minutos como quaisquer outros. A arquibancada é combustível, não é motor. Você pode conferir o que aconteceu naquela noite ruim na nossa análise da derrota, porque cobrir o Leão é cobrir os dois lados.

Ficha do santuário: o Estádio Manoel Barradas, em Salvador

Capacidade do Barradão e onde fica o estádio do Vitória

Dado Informação
Nome oficial Estádio Manoel Barradas
Apelido Barradão
Onde fica Bairro de Canabrava, Salvador (BA)
Proprietário Esporte Clube Vitória
Inauguração 11 de novembro de 1986, Vitória 1 x 1 Santos (amistoso)
Primeiro gol Dino, do Santos
Capacidade oficial 30.793 espectadores
Gramado 105 x 68 metros, grama natural
Maior público 55.200, em 07/05/2000, Vitória 2 x 0 Juazeiro (registro do próprio clube)

Uma ressalva honesta sobre a última linha: as fontes divergem. O Esporte Clube Vitória registra 55.200 presentes naquela final de primeiro turno do Baianão de 2000, enquanto a ficha do estádio na Wikipédia traz 51.200. Adotamos o número do clube por ser a fonte primária, mas o torcedor merece saber que existe divergência em vez de receber um número escolhido em silêncio. Mais detalhes sobre a casa do Leão estão na nossa página do Barradão.

Agora os 90 minutos valem uma vaga na semifinal

A frase do Renê tem prazo para ser testada outra vez. O sorteio das quartas de final da Copa do Brasil acontece na terça-feira (11/08), às 11h, na sede da CBF, no Rio de Janeiro. Os jogos de ida estão marcados para 26 e 27 de agosto e os de volta para 2 e 3 de setembro. O adversário ainda não existe, e qualquer nome que aparecer antes do sorteio é chute.

O que já existe é a fila de sócios que fez 18.214 catracas girarem numa quinta-feira, a bateria da TUI atrás do gol e um lateral novato no clube que, em poucos meses de Canabrava, entendeu antes de muita gente o que o estádio faz com quem chega de fora. Se o Leão da Barra pegar a volta em casa, o torcedor colossal já sabe o roteiro. Para não perder horário nem canal, acompanhe o hub de onde assistir o Vitória.

Juanito disse a frase em 1985 e morreu sem saber que ela chegaria a Canabrava. Abel Ferreira a traduziu para o português. E foi um lateral-esquerdo recém-chegado ao Leão, com dois gols na noite mais importante da temporada, quem deu a ela o endereço definitivo: 90 minutos no Barradão é muito tempo.

Perguntas frequentes sobre o Barradão e a frase

Quem disse que 90 minutos no Barradão é muito tempo?

O lateral-esquerdo Renê, do Vitória, em entrevista à GE TV logo depois da goleada de 4 a 0 sobre o Athletico-PR, em 6 de agosto de 2026, no jogo de volta das oitavas de final da Copa do Brasil. A frase completa foi: “Não tem explicação, essa torcida é maravilhosa, 90 minutos no Barradão é muito tempo, sabemos da nossa força em casa”.

Qual a origem da frase "90 minutos no Bernabéu são muito longos"?

A frase é atribuída a Juanito, ídolo do Real Madrid, em abril de 1985. Ele a disse aos jogadores da Inter de Milão depois de o Real perder por 2 a 0 na ida da semifinal da Copa da UEFA, no San Siro. Na volta, em 24 de abril de 1985, o Real venceu por 3 a 0 no Bernabéu, virou o confronto e foi campeão do torneio. A redação original mistura espanhol e italiano: “90 minuti en el Bernabéu son molto longo”.

Qual a capacidade do Barradão?

O Estádio Manoel Barradas tem capacidade oficial para 30.793 espectadores. O maior público da história do estádio, segundo registro do próprio Esporte Clube Vitória, foi de 55.200 pessoas em 7 de maio de 2000, na vitória por 2 a 0 sobre o Juazeiro pela final do primeiro turno do Campeonato Baiano, quando as normas de lotação eram outras.

Onde fica o Barradão e de qual time é o estádio?

O Barradão fica no bairro de Canabrava, em Salvador (BA), e é o estádio do Esporte Clube Vitória, que é o proprietário do equipamento. O nome oficial é Estádio Manoel Barradas.

Quando o Barradão foi inaugurado?

Em 11 de novembro de 1986, com um amistoso entre Vitória e Santos que terminou empatado em 1 a 1. O primeiro gol da história do estádio foi marcado por Dino, do Santos. Em 1991, o estádio foi reinaugurado para jogos oficiais com uma goleada do Leão por 4 a 0 sobre o Serrano, pelo Campeonato Baiano.

Quantos torcedores foram ao Barradão contra o Athletico-PR?

O público total foi de 20.638 torcedores, com renda de R$ 488.407,00, segundo números divulgados pelo clube. Do total, 18.214 entraram pelo programa de sócios Sou Mais Vitória. Foi um crescimento de 39,3% em relação ao jogo anterior em casa, contra o Palmeiras, que teve 14.818 presentes.

Qual é a maior torcida organizada do Vitória?

A Torcida Uniformizada Os Imbatíveis, a TUI, fundada em 20 de outubro de 1997. É a maior e principal organizada do clube, tem o Capitão Caverna como símbolo e se posiciona no Barradão atrás do gol, à direita das cabines de rádio.

Quantos gols Renê tem na Copa do Brasil 2026?

Renê é o artilheiro isolado da Copa do Brasil 2026, com 6 gols em 7 jogos disputados, 3 gols à frente de Bernabei e Erick, que têm 3 cada e seguem vivos na competição. Antes da decisão contra o Athletico-PR, ele teve uma conversa particular com o técnico Jair Ventura, que confirmou o encontro sem revelar o conteúdo.

Redação Leão da Barra
Escrito por

Redação Leão da Barra

A Redação Leão da Barra assina a cobertura do site independente Leão da Barra, feito por torcedores do Esporte Clube Vitória e sem vÃ�nculo com o clube. Cobre jogos, transmissões, escalações, mercado, bastidores e números do Leão, com datas, horários e resultados conferidos na CBF, nos canais oficiais do clube e nas emissoras. Os critérios que seguimos estão na página Critérios Editoriais.

Ver todos os artigos → 592 artigos publicados